Estava andando a esmo naquela praça central. Típico centro urbano das cidades grandes que principalmente ao crepúsculo, todos aqueles pombos, o barulho da fonte artificial servindo de cenário para pessoas apressadas, era muito natural. Ela, porém ainda andava a esmo.
Não era o tic-tac de seu antigo relógio de pulso que chamava a sua atenção, mas sim toda a sensibilidade daquela cena que passava despercebida pelos rostos à volta.
Era um dia frio e seu corpo ficava arrepiado quando a brisa o tocava. Estava tão mergulhada dentro de si que nem mesmo os pombos percebiam sua presença. Excêntrica presença! Dentro de seus sapatos Old School, da sua longa saia verde musgo, de sua blusa preta e sua jaqueta jeans, escondia-se uma grande mulher.
Caminhou até perto da fonte e sentou em um banco próximo. Passou a mão em seus curtos cabelos cacheados para arrumá-los já que o vento estava forte. Tirou da sua bolsa jeans surrada uma velha máquina fotográfica para registrar tudo o que via.
Pombos no chão buscando por migalhas, pessoas bem vestidas com a testa franzida e andando rápido, casais discutindo ao descer as escadas do metrô, as poucas árvores dançando com o vento e um homem, de frente para a fonte artificial, que parecia hipnotizado com o sobe e desce que a água fazia.
Ela abaixou a máquina, tirando-a de seus olhos para que pudesse observar a primeira figura que de fato chamara sua atenção. Alí de pé ele estava e ela analisava seu perfil.
Um velho All Star, um jeans escuro, um blaiser terra-cota e uma blusa que parecia ser azul marinho. Tinha uma barba mal feita que fazia contraste com sua pele clara e que não fazia justiça ao seu rosto de 20 anos de idade, mas que combinava com seu cabelo castanho escuro totalmente desarrumado. Seus olhos estavam fixos na água da fonte, mas ela percebeu que eram olhos pretos bem escuros.
De repente, ele pareceu notar que foi descoberto e em um movimento brusco, olhou na direção dela e encontrou seus olhos. Ela, por sua vez, ficou paralisada, pois não era comum pessoas estabelecendo contato visual com ela. Sentia-se ardendo por dentro e de alguma forma tinha a impressão de que o conhecia, por isso não mexeu um músculo e continuou olhando-o.
Ele também sentia que era uma moça familiar, mas ao mesmo tempo tinha certeza que nunca tinha visto criatura tão bela e diferente. Deu um passo. O suficiente para o coração dela saltar no peito como se o marciano Monte Olímpo tivesse despertado. De onde ele viera? Seria ele seu milagre particular? O vazio da sua existência teria fim? Vazio. Era como ele se sentia. Vazio dele mesmo e cheio daquela nova sensação, com isso, sorriu. O que fez ela achar que suas pernas eram membros independentes, por isso não conseguia ir embora, mas com muito esforço foi levantando do banco.
Movimento tal provocador do desaparecimento do sorriso e a confusão aparente surgia no rosto dele. Ela sentiu medo e euforia, desejo e surpresa, felicidade e angústia. Colocou a máquina dentro da bolsa, ainda fitando quem a fitava. Enquanto isso, ele queria correr e abraça-la, mas não sabia se era seguro chegar a tal ponto. Deu outro passo.
Ela nervosa e suando frio, virou-se e tomou a direção contrária. Ele ficou.
Os pombos levantaram voô e as pessoas ainda andavam apressadamente. Ela se sentia viva e se questionava se há a possibilidade de amar alguém por cinco minutos, mas que se existisse ela amou profundamente. Ele tinha a certeza de que se era amor ou qualquer outra coisa, não importava, mas que esperava encontrá-la novamente para que pudesse sentir a estranha sensação de ter ganho seu milagre particular.
Bruna Bugana
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